Como interpretar a lista de ingredientes (INCI) dos cosméticos: um guia para fazer escolhas mais conscientes

Por Lucimara Nardi Comunello, farmacêutica CRF-RS 16378.

 

Aprenda como interpretar a lista de ingredientes (INCI) dos cosméticos, entenda a ordem dos componentes, descubra o que realmente pode ser concluído a partir do rótulo e faça escolhas mais conscientes.

 

Você já virou um cosmético para ler a lista de ingredientes e desistiu logo na primeira linha?

Aqua, Glycerin, Caprylic/Capric Triglyceride, Niacinamide, Cetearyl Alcohol...

Para muitas pessoas, a lista de ingredientes parece um conjunto de nomes complicados, quase impossíveis de entender. Ainda assim, ela é uma das partes mais importantes da embalagem.
É nela que encontramos informações valiosas sobre a composição do produto, os ingredientes utilizados e, muitas vezes, pistas sobre sua proposta de uso.

Mas será que basta identificar um ingrediente conhecido para saber se um cosmético é bom?
A resposta é não.

Neste artigo, você vai entender como interpretar corretamente a lista de ingredientes (INCI), quais informações ela realmente revela e quais conclusões não podem ser tiradas apenas observando o rótulo.


O que é a lista INCI?

INCI é a sigla para International Nomenclature of Cosmetic Ingredients (Nomenclatura Internacional de Ingredientes Cosméticos).
Esse sistema foi criado para padronizar os nomes dos ingredientes utilizados em cosméticos em diferentes países. Assim, independentemente do idioma da embalagem, um mesmo ingrediente recebe sempre a mesma denominação técnica.

Por exemplo:
Nome popular                                   Nome INCI
Água                                                 Aqua
Glicerina                                            Glycerin
Niacinamida                                       Niacinamide
Pantenol                                            Panthenol
Manteiga de karité                              Butyrospermum Parkii Butter

 

Essa padronização facilita a identificação dos ingredientes por consumidores, profissionais de saúde, pesquisadores e órgãos reguladores.

 

A ordem dos ingredientes é aleatória?

Não.

De modo geral e em muitos outros países, como na União Europeia, os ingredientes são listados em ordem decrescente de concentração, ou seja, do que está presente em maior quantidade para o que está presente em menor quantidade na formulação. Há, porém, exceções importantes: ingredientes presentes em concentrações de até 1% podem ser listados em qualquer ordem entre si (desde que apareçam após os ingredientes acima desse limite), e os corantes também seguem regras específicas.

A legislação brasileira não exige que os cosméticos apresentem a composição listada em ordem decrescente e sim de forma qualitativa dos ingredientes, utilizando a Nomenclatura Internacional de Ingredientes Cosméticos (INCI). Embora a maior parte dos produtos comercializados no Brasil apresente os ingredientes em ordem decrescente de concentração, essa exigência não está expressa no texto da RDC nº 907/2024.

Em muitos hidratantes, por exemplo, é comum encontrar nos primeiros lugares:

  • Aqua (água)
  • Glycerin
  • Emolientes
  • Umectantes
  • Agentes espessantes

Esses ingredientes formam a "base" do produto.

 

Então basta olhar os primeiros ingredientes?

Também não.

Esse é um dos maiores equívocos quando se fala em interpretação de rótulos.
Alguns ingredientes são extremamente eficazes em concentrações muito baixas.

É o caso, por exemplo, de:

  • retinoides;
  • alguns peptídeos;
  • ceramidas;
  • antioxidantes específicos;
  • conservantes.

Portanto, um ingrediente aparecer no final da lista não significa automaticamente que ele seja irrelevante.
Da mesma forma, aparecer entre os primeiros não garante que ele seja o principal responsável pelos benefícios do produto.
A eficácia depende de diversos fatores, como a concentração utilizada, a estabilidade da formulação, o pH, a combinação com outros ingredientes e a tecnologia empregada.

 

O que a lista de ingredientes realmente permite descobrir?

Embora não revele tudo sobre um cosmético, a lista INCI fornece informações muito úteis.

Ela permite identificar:

  • quais ativos estão presentes;
  • quais substâncias podem causar alergia ou irritação em pessoas suscetíveis;
  • a presença de fragrâncias e corantes;
  • quais ingredientes compõem a base da formulação;
  • se existem ingredientes hidratantes, antioxidantes, calmantes ou esfoliantes;
  • se dois produtos aparentemente diferentes possuem composição muito semelhante.

Para consumidores atentos, ela também ajuda a comparar produtos além das promessas da embalagem.

 

O que não é possível descobrir apenas pelo INCI?

Aqui está um ponto que merece atenção.

A lista de ingredientes não informa:

  • a concentração exata de cada ingrediente;
  • a qualidade das matérias-primas utilizadas;
  • a tecnologia de encapsulação ou entrega dos ativos;
  • a estabilidade da formulação;
  • o desempenho clínico do produto.

Por exemplo, dois séruns podem conter niacinamida.
Isso não significa que tenham a mesma concentração, a mesma estabilidade ou os mesmos resultados.
É justamente por isso que interpretar um cosmético exige olhar para o conjunto da formulação — e não apenas para um ingrediente isolado.

 

Os primeiros cinco ingredientes são os mais importantes?

Em muitos casos, sim.

Os primeiros componentes costumam representar a maior parte da composição e influenciam características como textura, espalhabilidade, sensorial e hidratação.
Mas isso não significa que os demais ingredientes sejam dispensáveis.
Alguns ativos atuam em concentrações inferiores a 1% e ainda assim apresentam excelente desempenho quando há evidências científicas que sustentam seu uso.

 

Como comparar dois cosméticos de forma mais inteligente?

Ao comparar dois produtos, vale observar:

  • se utilizam ativos semelhantes;
  • quais ingredientes aparecem entre os primeiros da lista;
  • se existem ingredientes potencialmente irritantes para o seu tipo de pele;
  • se a formulação faz sentido para o objetivo desejado.

Ao mesmo tempo, evite conclusões simplistas, como:
❌ "Esse ativo está no final da lista, então não funciona."
❌ "Esse produto tem mais ingredientes, então é melhor."
❌ "O ingrediente destacado na embalagem é necessariamente o principal da fórmula."

A formulação cosmética é muito mais complexa do que isso.
O marketing da embalagem nem sempre conta toda a história

É comum que a frente da embalagem destaque ingredientes conhecidos, como vitamina C, ácido hialurônico ou niacinamida.
Isso faz parte da comunicação do produto.
No entanto, a lista INCI é a fonte mais objetiva para saber quais ingredientes realmente compõem a formulação.
Ela não substitui estudos clínicos nem informa concentrações exatas, mas oferece uma visão muito mais completa do que apenas as alegações de marketing.

 

Em resumo

A lista de ingredientes não serve apenas para quem é farmacêutico, dermatologista ou formulador.
Ela pode ser uma ferramenta poderosa para qualquer consumidor que queira fazer escolhas mais conscientes.
Entender como ela funciona ajuda a comparar produtos, reconhecer ingredientes conhecidos e desenvolver um olhar mais crítico sobre as promessas presentes nas embalagens.
Ao mesmo tempo, é importante lembrar que nenhum ingrediente deve ser analisado de forma isolada. O desempenho de um cosmético depende da formulação como um todo.


Perguntas frequentes

A ordem dos ingredientes sempre corresponde à quantidade?
Na maior parte da lista, sim. Os ingredientes costumam aparecer em ordem decrescente de concentração. Depois da faixa de aproximadamente 1%, porém, eles podem ser apresentados em qualquer ordem entre si, conforme a regulamentação da União Europeia. No Brasil, não existe essa obrigatoriedade de os ingredientes estarem em ordem descrescente de concentração. Basta que eles estejam todos descritos.

O primeiro ingrediente é sempre água?
Não. Embora seja muito comum em formulações aquosas, existem cosméticos anidros (sem água), como alguns óleos, bálsamos e maquiagens.

Um ingrediente no final da lista não funciona?
Não necessariamente. Muitos ingredientes apresentam eficácia em concentrações baixas e continuam sendo importantes para o desempenho da fórmula.

Posso escolher um cosmético apenas lendo o INCI?
A lista de ingredientes é uma excelente ferramenta, mas deve ser interpretada em conjunto com outros fatores, como a finalidade do produto, o tipo de pele, as evidências científicas disponíveis e a qualidade da formulação.

 

Como a DermaFinder pode ajudar?

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Muito além do marketing da embalagem, o rótulo revela quais ingredientes fazem parte da fórmula, onde identificar os ativos, como reconhecer fragrâncias e quais informações são obrigatórias. Neste infográfico, mostramos os principais pontos para interpretar um rótulo de forma simples e baseada em evidências.

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Referências:

• Regulamento (CE) nº 1223/2009 do Parlamento Europeu e do Conselho – Artigo 19 (Rotulagem de cosméticos).
• U.S. Food and Drug Administration (FDA). Cosmetic Ingredient Names e Summary of Cosmetics Labeling Requirements.
• Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Resolução RDC nº 907, de 19 de setembro de 2024.